QUARTA-FEIRA, 3 DE FEVEREIRO DE 2010

Bradesco, Petrobras e Natura entre as 100 mais sustentáveis do mundo

 
Ranking da revista canadense Corporate Knight, especializada em responsabilidade social empresarial  coloca o Bradesco, a Petrobras e a Natura entre as 100 empresas mais sustentáveis do mundo. As corporações brasileiras ficaram respectivamente na 94ª, 96ª e 99ª posições.

Apresentada há uma semana em Davos, na Suíça, durante o Fórum de Líderes, a 6ª edição do ranking da Corporate Knight foi elaborada a partir das observações de um conselho de 17 especialistas em responsabilidade socioambiental e sustentabilidade, entre os quais o brasileiro Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social.


Para chegar às melhores, os especialistas consideraram dez critérios técnicos observados nos relatórios oficiais das empresas, levando em conta variáveis como a emissões de CO2, eficiência energética, pagamento de impostos, a melhor relação entre a remuneração do executivo principal e dos trabalhadores, geração resíduos e a capacidade de inovação.

O ranking é formado por 24 países. O primeiro lugar ficou com o Reino Unido ( 21 empresas listadas), seguido pelos EUA (12), o bloco dos escandinavos (10), Austrália e Canadá (com 9 empresas cada) e Suíça (6).

As três corporações mais sustentáveis  foram a General Electric (EUA), a Pacific Gas & Electricity (EUA) e a empresa de logística Tnt Nv (Holanda). Pesou a favor da campeã GE, segundo os coordenadores do ranking, o baixo índice de produção de resíduos, a alta diversidade de gênero nos quadros de funcionários e a eficiência na redução das emissões.

É a primeira vez que empresas brasileiras são classificadas no Top 100. Contou pontos para o Bradesco a excelente relação entre produtividade e emissões de gases de efeito estufa, embora o banco tenha ficado em último lugar no item geração de resíduos, um dos critérios analisados.

 

Já a Petrobras demonstrou bom desempenho na eficiência energética de sua produção. E sua posição na tabela só não foi melhor graças à baixa diversidade de gênero no conselho de administração: dos oitos membros, apenas a presidente (Dilma Rousseff) é mulher.

Considerada nacionalmente um ícone da sustentabilidade empresarial, a Natura obteve o seu lugar na lista global por causa da clareza de seu relatório, feito rigorosamente sob os critérios do GRI (Global Reporting Initiative), modelo consagrado como o mais completo. Contra si, pesou o fato de não ter presença feminina no conselho de administração.

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da consultoria Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade

 

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QUARTA-FEIRA, 20 DE JANEIRO DE 2010

Um balanço do fracasso de Copenhague

Quando às 17 horas do dia 18 de dezembro, os monitores do Bella Center, em Copenhangue, anunciaram que não haveria foto oficial dos chefes de estado, apenas confirmei a suspeita que me acompanhou durante toda a semana e que se consolidou com o discurso indiferente de Barack Obama: a COP 15 acabara sem nenhum resultado, jogando por terra as esperanças de bilhões de pessoas na construção de um acordo para salvar o clima do planeta.

O acordo de Copenhague não é um protocolo, muito menos uma decisão da Conferência das Partes das Nações Unidas—tanto assim que, constrangida pelo fracasso do processo, a organização sequer quis afixar sua logomarca ao documento. Ele nada mais é, portanto, do que uma carta de intenções. Boas, mas muito vagas, exatamente como convém a textos que nasceram para não serem levados a sério. Sobre a temperatura, o documento se digna a “reconhecer” o óbvio: a necessidade de enfrentar o aquecimento global para evitar aumento superior a dois graus Celsius, considerado ponto de inflexão na curva de estabilização do clima.

Propõe que os países ricos, apontados no Protocolo de Kyoto como os principais responsáveis pelo quadro de alterações climáticas, apresentem propostas nacionais de corte de emissão de carbono até 2020. E que os emergentes e pobres, bloco onde se encontra o Brasil, estabeleçam metas nacionais sem, no entanto, o compromisso internacional de implementá-las. Isso mesmo! Em relação a financiamento, compromete as nações desenvolvidas a investir U$ 30 bilhões num fundo de curto prazo –até 2012 – para apoiar os países pobres na adaptação aos efeitos do aquecimento global, ampliando este montante para US$ 100 bilhões anuais até 2020. O documento ficou muito distante do acordo que se esperava, com metas de redução de emissões mais ousadas.

Alinhavado pelos negociadores e chefes de Estado de EUA, Brasil, China, Índia e África do Sul. Este texto contou com a aprovação da União Européia, Canadá e Austrália (dois países tratados como vilões do clima antes e durante a COP 15), Japão e países africanos, exceto o Sudão. O pequeno e barulhento Tuvalu (suas manifestações chamaram a atenção nos corredores do Bella Center), Nicarágua, Cuba, Venezuela e Bolívia não quiseram assinar o documento por considerá-lo uma peça forjada para manter os interesses econômicos dos países mais ricos.

China versus EUA, EUA versus China

 

Na prática, o “acordinho” não obriga a nada. É um arremedo “informativo”. Os 192 países ficam liberados para formular suas próprias metas ou até abrir mão delas se julgarem mais adequado. Na teoria, as negociações seguem. Há um encontro marcado pelos europeus, para a cidade de Bonn, na Alemanha. A COP 16, marcada a princípio para dezembro de 2010, na Cidade do México, pode ser antecipada para tentar diminuir a impopularidade de alguns líderes tidos como responsáveis pelo fracasso da Convenção do Clima –Obama entre eles – e também a sensação de impotência que tomou conta do mundo ante a derrubada das altas expectativas em torno do encontro de Copenhague.

Não seria exagerado afirmar que a COP 15 naufragou por causa do chamado G2 – a reunião dos mais poderosos do planeta, China e EUA. O discurso de Barack Obama na última plenária dos países lançou por terra qualquer perspectiva de acordo. Até a entrada do primeiro presidente negro dos EUA, no grande auditório do Bella Center, exatamente ao meio-dia do dia 18 de dezembro, havia alguma expectativa de que ele pudesse surpreender o mundo com uma guinada nas propostas apresentadas por seus inflexíveis negociadores nos 10 dias anteriores. Ele não surpreendeu.

Com um discurso burocrático, meramente protocolar, apenas confirmou o que já se sabia: os EUA não aumentariam sua proposta de reduzir em 17% as emissões de CO2 tendo como base o ano de 2005 (pífios 4% se considerado o ano base de 1990). Todo mundo queria 40%. E ficou querendo. Sobre os recursos para um fundo de apoio aos países pobres, também conhecido como Fundo Verde, afirmou vaga que o seu país contribuiria, sem, no entanto, dizer qual o valor e de onde viria o dinheiro para o donativo. Mais do que isso, de modo arrogante, condicionou o apoio à redação de um acordo de interesse dos norte-americanos e não do mundo.

O que ele queria, a rigor, era responsabilizar mais a China e alguns países emergentes, obrigando-os a seguir as mesmas regras impostas aos países ricos. E o argumento utilizado para melar o acordo foi “cobrar transparência” da China. Vale explicar: Obama defendeu o documento da Conferência de Bali, redigido há dois anos, no qual se decidiu que os países emergentes teriam que se comprometer a adotar medidas “mensuráveis, reportáveis e verificáveis” para comprovar a eficácia de suas ações de combate ao aquecimento global.

A China tinha outro entendimento. Para ela, essas medidas só seriam válidas para ações financiadas com dinheiro externo. O que Obama chamou de transparência, Wen Jiabao, o premiê chinês, classificou como atentado à soberania nacional. E assim, de modo conveniente para as duas partes, o acordo capotou na curva a despeito do esforço diplomático de outros líderes –como Lula, Sarkozy, Merkel e Brown—e da presença inédita de 130 chefes de Estado de todo o mundo.

 

Conveniente para as duas grandes potências

Por que conveniente? Obama, na verdade, não quis se indispor com o Congresso americano, onde tramita uma proposta de descarbonizar a economia norte-americana, justamente num momento em que a economia de seu país começa a sair da crise que abateu o planeta em 2008-2009. Assumir compromissos mais ambiciosos de corte de emissões—sem a equivalência de uma proposta chinesa — poderia ser visto, no âmbito doméstico, como atitude contra os interesses nacionais, coisa que empurraria para baixo a popularidade já não tão alta do presidente dos EUA. Para a China, o adiamento de um acordo significa mais tempo para fazer negócios na velha economia, não tendo que arcar já com os altos custos da mudança para uma economia de baixo carbono.

O mundo, infelizmente, assistiu impotente a essa encenação, da qual se podem tirar três conclusões importantes. A primeira é que sistemas de discussão multilateral como o que prega a ONU, baseados na construção de consensos, não funcionam mais para assuntos que envolvem grandes interesses econômicos. Prevalecerão sempre os dos mais poderosos, ainda que a custa da qualidade de vidas das próximas gerações. Nesses embates, os argumentos econômicos se sobrepõem aos éticos. A segunda conclusão é que faltam líderes estadistas, nos governos e nas empresas, programados a partir de novos modelos mentais que consigam equilibrar resultados econômicos com respeito ao meio ambiente e justiça social. Há líderes velhos demais para um mundo novo demais. E a transição na formação de novos perfis exige rapidez.

A terceira conclusão, mais dura, é que os cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU têm razão quando afirmam que, pesarosamente, os líderes atuais só vão começar a agir quando os trágicos efeitos das mudanças climáticas começarem a bater na porta de suas casas.


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QUARTA-FEIRA, 16 DE DEZEMBRO DE 2009

Campanha eleitoral, em Copenhague.

Escrevo direto de Copenhague.

A rigor, a campanha para a presidência da Republica só começa oficialmente no ano que vem. Mas na COP 15, a Conferência do Clima que acontece em Copenhague, a corrida para o cargo está em pleno vapor.  A ministra Dilma Roussef, candidata do PT, chefia a delegação brasileira, uma das mais numerosas do evento. O governador José Serra, provável candidato do PSDB, apresentou ontem, em seminário concorrido, o programa de corte de emissões de CO2 do governo do Estado de São Paulo. E a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, provável candidata do PV, fez palestras, participou de encontros fechados e distribuiu sorrisos e abraços nos corredores do gigantesco espaço de convenções da capital dinamarquesa.

   
Claro que sobre tais participações seus assessores imediatos afirmarão tratar-se, com razão, de compromissos de agenda política e, portanto, atividades do protocolo profissional. Afinal, Dilma é uma alta executiva do governo federal, Serra recebeu o convite das Nações Unidas para falar dos compromissos de descarbonizacão assumidos recentemente pelo mais rico Estado brasileiro e Marina, histórica liderança ambiental, reconhecida mundialmente por sua militância, não poderia deixar de estar em um encontro global que aborda o tema de sua especialidade.

  
O fato é que, políticos que são, eles estão em plena campanha, digam ou não. E isso ficou muito claro nas estratégias armadas por seus assessores, nos palcos que escolheram para desfilar compromissos (velhos e recentes) relacionados ao tema e nas declarações com endereço certeiro. Para começo de conversa, suas participações estão sendo devidamente registradas, o que permite supor –claro- que, editadas mais tarde, servirão como mote para alguns programas de TV do horário eleitoral gratuito. A despeito de o tema da sustentabilidade aparecer como menos importante do que outros em recentes pesquisas de opinião publica –as que justamente costumam orientar os formuladores de campanhas eleitorais – ninguém duvida de que ele tem mais relevância hoje do que, por exemplo, na campanha presidencial passada. A questão ambiental entrou na agenda publica. E está interessando cada vez mais o cidadão comum.

  
Em Copenhague, discute-se hoje o futuro das próximas gerações que vão viver no Planeta. E os brasileiros, ao que indicam pesquisas recentes, estão mais atentos, sensíveis e preocupados com este assunto. Logo, apesar de geograficamente distante, a COP15 representa, de partida, um palco interessante para desfiar um rosário de boas intenções, exercitar prestigio de liderança em tema global, demonstrar compromissos socialmente valorizados e exibir feitos políticos que, de alguma forma, vão impactar as condições de vida dos brasileiros hoje e amanha. Natural, portanto, que os principais candidatos levem suas idéias para hofotes locais.

   
Observando a performance de cada um dos postulantes, seria arriscado afirmar quem ganhou mais votos a partir de Copenhague. Nesse território ambiental, ate pela afinidade existencial com o tema, Marina Silva se sente muito à vontade. Além de saber o que diz, tem a simpatia das ONGs, conversa fácil com os formadores de opinião e conta com o respeito de empresários engajados  e até de políticos considerados adversários. Prova disso foi a cena presenciada no aeroporto de Lisboa, a caminho de Copenhague: ao saber que a senadora estava na fila, Carlos Minc, o ministro de Meio Ambiente, retrocedeu alguns passos para cumprimenta-la. Em São Paulo, Lisboa e Copenhague, Marina foi várias vezes interpelada por gente querendo simplesmente abraçá-la ou dirigir-lhe palavras de apoio.

Nos eventos fechados, ela  teve o desempenho seguro que dela normalmente se espera: entre outras coisas, defendeu posições firmes, como, por exemplo, a de que o Brasil, mais do que se candidatar a receber, deve na verdade contribuir com dinheiro para um fundo global de apoio à adaptação dos países mais pobres para as mudanças climáticas. E até sugeriu um valor para o donativo: U$ 1 bilhão. Dilma manifestou-se contra a tese. Serra concordou com a idéia e também com o valor. Enfim, franco debate eleitoral travado em português num evento cuja língua oficial é o inglês.


O governador, aliás, cumpriu bem o seu papel em terras dinamarquesas. Convidado para um seminário de governos sub-nacionais, no qual dividiu o palco com o cinematográfico governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, um discreto Serra apresentou em inglês a política de 20% de cortes de emissões do Estado de São Paulo ate 2020, abordou os desafios de sustentabilidade de um dos estados mais populosos do planeta, apregoou inovação verde e mostrou a desenvoltura de um aluno estudioso do tema. A julgar pelos aplausos ao final de uma fala de 20 minutos, ele passou na prova com boa nota. Na verdade, ganhou mesmo o dia ao receber elogio rasgado de Schwarzenegger, seu sucessor no palco. Esta é uma passagem que certamente figurará em programa de horário eleitoral gratuito.

 

Já Dilma enfrentou alguns problemas. A COP 15 não acabou ainda. E pode ate ser que a delegação brasileira, chefiada por ela, venha a ter um papel decisivo na costura de um acordo técnico-político para o clima, à altura de algumas altas expectativas geradas em torno do Brasil. No entanto, a candidata do presidente Lula tem sido mais lembrada nas conversas paralelas por duas facetas não exatamente abonadoras: despreparo técnico para o tema e uma certa irritação com o debate publico de idéias –talvez por não se sentir tecnicamente à vontade, talvez por achar que poderia estar cuidando de outros assuntos no Brasil. Ainda ecoa por aqui nas rodas de brasileiros a gafe cometida em uma de suas apresentações quando disse que o meio ambiente atrapalha o desenvolvimento sustentável. Quem não estava na sala chegou a duvidar da afirmação. Precisou circular um vídeo para convencer os mais renitentes.


Serra, Marina e Dilma só concordaram no otimismo quanto ao que sairá de Copenhague. E também na realização pratica do ideal sugerido pelo primeiro ministro da Dinamarca, Lars Rasmussen, agora presidente da COP 15, afirmou: “Copenhague é o melhor lugar para estar, o melhor lugar para agir.”

 

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da consultoria Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade.

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QUARTA-FEIRA, 9 DE DEZEMBRO DE 2009

As empresas com discurso verde mais mentiroso

A organização Consumers International (CI) acaba de divulgar os vencedores do provocativo “Prêmio Piores Empresas de 2009  com o qual ela distingue (ou cutuca!) as empresas norte-americanas que usaram de modo mais descaradamente irresponsável o atributo ambiental na propaganda de seus produtos.

    

   Trata-se, portanto, de um prêmio para detonar as companhias que praticam o greenwashing  ou, como preferem os espanhóis, o “lavado verde”, nomes dados a uma prática cada dia mais comum — e mais repudiada — de utilizar argumentos ecológicos a torto e a direito, sem a efetiva correspondência com os fatos.

 

   Em 2009, quatro empresas levaram o prêmio. E quatro grandes. Sobrou para a montadora Audi, para a britânica BP de petróleo, para a companhia área Easy Jet (conhecida pelos preços muito baixos) e para a quase sempre incensada Microsoft.

 

   Na justificativa da premiação, a Consumers International apresenta a sua metodologia e um conjunto de dados concretos contra os quais fica difícil brigar. Segundo a CI, a Audi entrou para a galeria  “por dar a entender em uma recente campanha de propaganda que seu novo carro movido a diesel A é limpo e não prejudica o meio ambiente”. Já a BP ficou com o troféu por “manifestar preocupação com emissões contaminantes e falar frequentemente de sua divisão de energia alternativa apesar de ter reduzido investimentos em energias renováveis.”

 

    A pisada na bola da Easy Jet se deu ao “alardear continuamente que seus aviões são mais ecológicos do que um carro híbrido”. E a da Microsoft foi “por presumir que o Windows 7 é um produto ecológico porque agrega mecanismos de economia de energia, ao mesmo tempo em que orienta os consumidores a comprar um outro equipamento apenas para executar esse software.”

 

Restou ainda um prêmio especial para a CO2 is Green, uma organização nova apoiada pela indústria petroleira dos EUA que defende, contra todas as evidências científicas,  a inusitada tese de que as emissões de gás carbônico fazem bem ao meio ambiente. Prêmio justo, convenhamos.

 

Há quem não leve a sérios prêmios com tal proposta. Certamente, as empresas premiadas ou vão manter um silêncio de paisagem, para manifestar desprezo pela iniciativa, ou vão contestá-la publicamente alegando falta de seriedade e de critérios, ou defesa de interesses escusos a serviço de concorrentes ou detratores de ocasião.

Penso diferente. Nesses tempos em que reputação e imagem impactam o valor intangível das corporações, prêmios como este são excelentes instrumentos de pressão. Como expõem as empresas, destacando seus exageros e mentiras, servem de alerta às descuidadas que entraram na onda verde sem preparo, de forma involuntariamente desastrada, por força da orientação de um publicitário de mão pesada; e servem também de reprimenda ás que pegaram carona ma onda, apostando na desinformação do grande público. Nos dois casos, quem ganha com tamanha vigilância é a sociedade.

A Consumers International vai estar em Copenhague discutindo os interesses dos consumidores nesse contexto de debate de mudanças climáticas. Sorte a nossa!

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor de Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade

 

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SEXTA-FEIRA, 27 DE NOVEMBRO DE 2009

Em quem o brasileiro confia?

Não são poucos os que desconfiam das pesquisas de opinião pública, sob a alegação de que não representam um quadro preciso da realidade que tentam capturar, servindo, portanto, mais a digressões do que a análises aprofundadas. Penso diferente. Sempre é possível aprender algo com elas, especialmente sobre os comportamentos e valores do tempo em que são elaboradas, ainda que os dados não revelem por si novidades nem  permitam conclusões certeiras.

  

Este é o caso da pesquisa feita pelo Ibope Inteligência sobre o nível de confiança dos brasileiros em relação a instituições e grupos sociais. Denominado Índice de Confiança Social, este importante monitoramento  da opinião nacional reforça algumas impressões já consagradas pelo senso comum e inspira, por tabela, outras muitas reflexões interessantes.

   

   Como era de se prever,  a família é para o brasileiro a instituição mais confiável (90 pontos). Ninguém arriscaria contestar esse dado, mesmo sem pesquisa. Em seguida vem os bombeiros (88), as igrejas (76) e as Forças Armadas (71), organizações que se apresentam, no imaginário do cidadão brasileiro,  como provedoras de segurança física (caso dos que enfrentam os incêndios e acidentes  e também dos que trabalham na defesa) e conforto espiritual ( as religiosas).

   

Chama atenção, no entanto, que a midia esteja entre os top five mais confiáveis (71 pontos). Justamente ela que costuma ser acusada por políticos e dirigentes de futebol de manipular os fatos contra ou a favor de alguém ou de algum tipo de interesse menos nobre. O estudo do Ibope Inteligência não deixa dúvida: os brasileiros confiam mais nos jornais, TVs, revistas e rádios do que nos seus amigos (67), vizinhos (59) e nos brasileiros em geral (59). Muito mais do que nos partidos políticos (31), no Congresso Nacional (35), nos sindicatos (46) e no sistema público de saúde (49). A desesperança na classe política –algo fácil de se observar em qualquer conversa de ponto de ônibus–certamente explica o preocupante baixo índice de confiança no sistema eleitoral brasileiro e nas eleições (49).

  

 É claro que, diante desses números, restará a algum político mais cínico alegar que a publicação de pesquisas como a do Ibope apenas confirmam  a sanha conspiratória da mídia contra este ou aquele partido. Mas fosse eu o presidente do Congresso e da Câmara, ou de um partido político, começaria hoje um programa intensivo de reabilitação de reputação (será que isso os interessa?).  

   Não a partir da contratação de profissionais que planejam imagem em laboratório, escrevendo discursos convenientes, forjados com base em pesquisas qualitativas, que soam tão artificiais quanto os de um boneco de ventríloquo. Mas mudando radicalmente ações, comportamentos e, principalmente, valores  na direção de cumprir bem o papel esperado pela sociedade. A nossa crise é essencialmente de valores. Essa parece uma tese ingênua, dessas que já não mobilizam de tão repisadas. Mas a persistir a crescente desconfiança na classe política, o risco que se corre é de que esse movimento aprofunde a apatia e resulte, mais adiante, em perigosa indiferença pelo exercício da democracia das urnas, o que, a rigor, só interessa mesmo a quem não quer largar o poder.

  

  Em relação a instituição presidente da República, a pesquisa proporciona duas leituras. Uma, digamos, favorável: é uma instância política mais confiável (66) do que o conjunto do governo federal (53), governo municipal (53), Congresso Nacional e partidos políticos. A outra serve como alerta para o atual ocupante do posto. Apesar de popular como atestam outras pesquisas de opinião pública recentes, o índice de confiabilidade da presidência – e portanto de quem está morando no palácio do Planalto– segue inferior aos dos meios de comunicação, uma das instituições cuja “má vontade” para a divulgação dos bons feitos de seu governo ele gosta de criticar sempre que pode.

  

  A pesquisa estabelece ainda alguns recortes interessantes, por faixa etária, critério econômico e região. Os brasileiros com  idade entre 18 e 24 anos são os que menos acreditam na Polícia (49), nos vizinhos (51) e, o que é mais grave, nas escolas públicas (62). E os que têm acima de 70 anos estão entre os que menos confiam na Justiça. Quando os jovens, donos do futuro, descrêem na instituição que pode ajudá-los em seu próprio desenvolvimento, e os idosos, detentores do passado, acreditam pouco na instituição que deveria assegurar o exercício dos direitos, talvez seja a hora de pensar no tipo de projeto de país que desejamos construir. E nos valores que vão lhe servir de base de sustentação. No mínimo para fazer justiça á grande expectativa global que vem se formando em torno da condição de emergente mais querido do planeta.

 

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor de Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade

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TERÇA-FEIRA, 10 DE NOVEMBRO DE 2009

Códigos de ética em empresas. Para que servem?

Depois de três anos tentando abrir os olhos da diretoria de sua corporação para fraudes contábeis, Lynn Brewner, uma especialista em ética, resolveu tornar público tudo o que sabia sobre os bastidores nada honestos da Enron. Em 2001, com o seu ato de coragem, acabou sendo pivô do maior escândalo financeiro dos Estados Unidos.

 

Um pouco antes, a Tyco, e algum tempo depois a WorldCom e a Parmalat, foram flagradas com a mão na mesma botija. Em comum, além de grandes companhias, as quatro adotavam uma espécie de “moral dupla” bastante conhecida no mundo corporativo: da “porta para fora” vendiam a imagem de sólida reputação, inovação e prosperidade; da “porta para dentro”, em nome do vale-tudo empresarial, abusavam de expedientes mentirosos e irresponsáveis, como o de maquiar balanços financeiros, enganando investidores crédulos e desafiando a vista grossa de regulações frouxas ou inexistentes.

  

Não restou aos mercados outra saída senão reagir ao barulho provocado por esses megaescândalos corporativos, criando regras mais rígidas de governança corporativa para garantir a tranquilidade de investidores à beira de um ataque de nervos.

   

Foi nesse clima quente que o congresso norte-americano sancionou, em 2002, a lei Sarbanes-Oxley, com o propósito de aplicar mecanismos para reduzir o risco de fraudes nos negócios – hoje qualquer empresa que movimente papéis na Bolsa de Nova Iorque é obrigada a rezar na cartilha da Sox. Foi também na crista dessa onda de resgate da credibilidade do mercado de ações, pilar da economia virtual ruída no setembro negro de 2008, que tomaram impulso os códigos de ética corporativos.

   

Sobre este tipo de instrumento, vale dizer que cresceram no início desta década, sob forte estímulo do movimento de responsabilidade social. E não apenas como agentes de promoção da transparência mas também como reguladores de condutas empresariais desejáveis para funcionários, fornecedores, consumidores, concorrentes, governos, meio ambiente e comunidades. Dando voz á ideia de que é recomendável combinar negócios com valores, os códigos passaram a disciplinar, como justas e adequadas, atitudes como proibir qualquer tipo de discriminação, exigir compromissos socioambientais do prestadores de serviço, assegurar o sigilo das informações de clientes, não maldizer a concorrência, não pagar propinas a agentes públicos nem fazer caixa dois para políticos,  preservar recursos naturais e incorporar as expectativas das comunidades na gestão dos negócios.

   

  

Há, no entanto, quem considere os códigos mero protocolo para jogar o jogo do mercado contemporâneo. A principal crítica é que eles tendem a ser letra morta em empresas nas quais a ética é um discurso vazio sem correspondência nas atitudes cotidianas.

  

Para que um código funcione, no entanto, é fundamental ater-se a alguns procedimentos. Recentemente, após uma análise de alguns dos melhores códigos de ética de empresas brasileiras, identifiquei entre eles oito fatores comuns, certamente associados ao seu êxito. O primeiro diz respeito á amplitude dos temas cobertos e aos desdobramentos para as diferentes partes interessadas. O segundo se refere ao envolvimento desses públicos na elaboração e divulgação  dos códigos a partir de consultas e sondagens em painéis. O terceiro ponto está relacionado à educação do público interno, feita normalmente por meio de ações corporativas específicas (seminários, DVDs, e-learning) que possibilitam conhecer e se apropriar dos conteúdos, aplicando-os no cotidiano de suas atividades profissionais. E o quarto tem a ver com a capacitação de agentes multiplicadores na organização.

   

Como quinta variável, destaca-se o mapeamento de vulnerabilidades. Nele, as corporações identificam áreas nas quais a questão ética pode ser mais crítica e, por consequência, reforçam ações de educação e sensibilização. Quando necessário, elaboram códigos de conduta departamentais ou temáticos. O sexto fator é a definição de estruturas e fluxos para recebimento de denúncias de violação do código e encaminhamento de soluções.

 

Já o sétimo e o oitavo pontos contemplam as revisões e o lançamento. Como a realidade de atuação das empresas é dinâmica, os códigos precisam sofrer revisões, no mínimo bienais, para atualização e aperfeiçoamento. Uma ação forte, marcante e simbólica, além de comunicação regular, são fundamentais para conferir rimportância institucional a este tipo de instrumento. Ou então ele será apenas um conjunto de palavras bonitas, sem eco, para pendurar no mural.

 

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Idéia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável: Estratégia e Conhecimento em sustentabilidade.

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QUARTA-FEIRA, 14 DE OUTUBRO DE 2009

Impostos sobre a atividade destrutiva da natureza

Para Lester Brown salvar a civilização é uma tarefa complexa mas possível. Basta reestruturar a economia global visando estabilizar o clima e a população, erradicar a pobreza, restaurar os suportes naturais e, sobretudo, resgatar a esperança. Este é, em essência, o desafio proposto em seu novo livro, Plano B 4.0, a ser lançado no Brasil no próximo dia 22 de outubro, em edição patrocinada pelo Bradesco, e co-editada por Idéia Sustentável e New Content. No mesmo dia, Brown apresentará as idéias do livro em palestra aberta a convidados.

    Na visão do autor, presidente do Earth Policy Institute e um dos mais importantes pensadores mundiais do tema, a humanidade dispõe de tecnologia, instrumentos econômicos e recursos financeiros para executar o Plano B. Precisa apenas de vontade política. Um de suas convicções refere-se à necessidade de mudar a estrutura de impostos, reduzindo os que incidem sobre a renda e aumentando os relacionados às atividades destrutivas da natureza. É o que ele chama de “dizer a verdade ambiental”, isto é, fazer com que os preços de produtos reflitam rigorosamente os impactos ambientais –um conceito que pode ganhar muita força pós-Copenhague.

   Segundo o especialista, o melhor caminho para estimular o investimento em fontes de energias limpas como a eólica e a solar é incorporar, por exemplo, ao imposto sobre o carvão os custos do aumento em gastos com saúde, decorrentes de sua mineração e da poluição do ar que provoca, além de custos dos danos causados pelas chuvas ácidas e os das mudanças climáticas.

   Em defesa de sua tese de realocação tributária, ele menciona um estudo norte-americano sobre o real preço da gasolina. Na bomba do posto de distribuição, o litro do combustível custa U$ 1. Mas o seu valor real sobe para US$ 4,17 quando acrescidos os custos para a sociedade na forma de mudanças de clima, subsídios e isenções fiscais para a indústria de petróleo e tratamento de doenças respiratórias associadas às emissões de carbono de automóveis. Alguém terá de pagá-los. Ou começamos a quitar hoje ou a conta ficará para as próximas gerações.

    Na Itália, França, Alemanha e Reino Unido os impostos sobre a gasolina representam em média US$ 1/litro. Para Brown, o valor de apenas US$ 0,13/litro praticado nos EUA –pouco mais de 10% da tributação europeia – explica o fato de que lá se consome muito mais gasolina do que em todos os países do velho continente juntos. Na prática –ele acredita– os altos impostos da Europa têm ajudado a fortalecer o setor de economia energética e a ampliar, nas últimas décadas, investimentos em transporte público de qualidade, que a tornam hoje menos vulnerável aos problemas de suprimento de petróleo.

   Na avaliação de Brown , um aumento anual de US$ 0,12 por litro de impostos, ao longo da próxima década, compensados com reduções equivalentes no imposto de renda, levará o imposto sobre a gasolina norte-americana a atingir o patamar europeu. Ainda que permaneça abaixo dos US$ 3,17 de custos indiretos já mencionados, este valor, conjugado com o previsível aumento no preço da gasolina mais o aumento do imposto sobre o carbono, será –na opinião de Brown — suficiente para estimular os indivíduos a utilizarem sistemas de transporte público melhorados e a comprar veículos híbridos e elétricos a partir de 2010, quando eles deverão estar disponíveis no mercado.

    Realocação tributária com fins ambientais não é exatamente uma ideia nova. Desde 1999, uma política pública da Alemanha vem transferindo  gradualmente impostos do trabalho para a energia. Por causa disso, em 2003, as emissões de dióxido de carbono (CO2) já tinham observado uma queda de 20 milhões de toneladas, gerando, por tabela, 250.000 novos empregos. No mesmo compasso, expandiu-se o crescimento do segmento de energia renovável. Em 2006, este setor contabilizava 82.100 empregos apenas no campo da energia eólica. Até 2010, aquele país espera adicionar mais 60.000 postos de trabalho, algo digno de nota até mesmo para os padrões alemães.

    A Suécia seguiu caminho semelhante. Entre 2001 e 2006, desonerou os impostos de renda em US$ 2 bilhões, redistribuindo-os na forma de taxas sobre atividades ambientalmente irresponsáveis.  França, Itália, Noruega, Espanha e o Reino Unido incluem-se entre as nações que também adotam tais políticas. E o que é melhor: com total apoio dos cidadãos. Nesses paises –vale dizer—o tema ambiental está entre as preocupações dos eleitores, motivo pelo qual também passou a figurar na agenda dos políticos. Pesquisas indicam que, quando devidamente informados sobre os benefícios da medida, pelo menos 70% dos europeus acham muito boa a realocação de impostos ambientais.

Eis uma ideia interessante para ser valorizada também no Brasil.

 

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Idéia Socioambiental e diretora da consultoria Idéia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade

ricardo@ideiasustentavel.com.br


Publicado por Voltolini às 18:56 | comentários (1)



QUINTA-FEIRA, 1 DE OUTUBRO DE 2009

Um Plano para Salvar a Civilização

Acabo de viver a rica experiência de editar o Plano B 4.0– Mobilização para Salvar a Civilização, o importante livro de Lester Brown, um dos mais notáveis pensadores mundiais da sustentabilidade.

Fundador do Worldwatch Institute, em 1974, e presidente do Earth Policy Institute desde 2001, Brown ficou conhecido pela série de relatórios “O Estado do Mundo” e também por ser um militante de ideias claras para os grandes desafios ambientais da humanidade. Nesses tempos de aquecimento global, ele tem sido um porta-voz qualificado da transição para uma economia de baixo carbono e interlocutor frequente de líderes políticos em todo o mundo.

  

Seu Plano B para “salvar a civilização” baseia-se em quatro metas interdependentes: estabilizar o clima e a população, eliminar a pobreza e restaurar os suportes da natureza, como água, solo e ar.  Convicto de que é possível mudar, Brown se apoia em um repertório de experiências mundiais bem-sucedidas que podem ser replicadas no esforço necessário e urgente, por exemplo, de reduzir o uso de água para irrigação, melhorar a produtividade do solo para segurança alimentar, planejar cidades mais centradas nos indivíduos, reflorestar áreas degradadas, controlar a natalidade ou incorporar o custo do carbono no preço de produtos.

Brown é um homem de ideias coerentes. Há pelo menos uma década, ele defende que persistir no “business as usual” levará a um aumento no número de estados em falência  e a um esgotamento dos recursos naturais, colocando sob ameaça a existência humana na terra.

O modelo econômico baseado no consumo de combustíveis fósseis, no carro como senhor da mobilidade e em produtos descartáveis tem, portanto, os seus dias contados.

A nova economia precisará ser erigida em torno de energias renováveis, de sistemas de transporte diversificados e da ideia de reuso e reciclagem de todos os materiais. Alterar a rota é, urgente e, principalmente, viável na medida em que a humanidade dispõe de tecnologia e capacidade política suficientes. Resta saber, no entanto, como sugere o autor no epílogo do livro, se está preparada para fazê-lo “em velocidade de tempos de guerra.”

Na provocativa análise de Brown, as grandes transformações sociais podem ser classificadas em três modelos. Um é o da catástrofe, segundo o qual apenas acontecimentos dolorosos mudam a forma de pensar e agir de uma sociedade. O outro sugere que uma sociedade só se transforma de fato após um longo período de mudanças graduais de pensamento e atitude. E o terceiro prega que a toda mudança importante advém de uma conjugação de grupos de pressão com o respaldo de lideranças políticas.

   Muito apregoado pelos cientistas, o primeiro modelo –na visão do autor– apresenta uma clara fragilidade. Esperar por um evento ambiental catastrófico, desses que mobiliza o mundo todo, pode ser tarde demais para solucionar a questão climática. Em entrevista que fiz, há dois anos, Mohan Munasinghe, vice-presidente do IPCC das Nações Unidas, afirmou temer que as pessoas só aprendam a partir de tragédias.

   O segundo parece ser, na visão de Brown, um pouco mais interessante. Sua vantagem é a consistência. Para ilustrá-lo, ele lembra o caso do declínio do tabagismo nos Estados Unidos.Três décadas de  intenso movimento de oposição ao cigarro, baseado em contra-informação, restrições á publicidade, tributação adicional do produto e uma montanha de multas, amadureceram a sociedade para o tema.

Para o presidente do Earth Policy Institute, o terceiro modelo é o mais eficaz na medida em que permite promover  mudanças de forma mais rápida. Em sua defesa, Brown destaca o casamento mais recente do ideário dos movimentos por uma economia de baixo carbono com a agenda do presidente Barak Obama, que culminou, por exemplo, na suspensão da construção de novas usinas movidas a carvão nos EUA.

   Botar em ação o Plano B exige, sobretudo, vontade política e um novo modelo mental, não mais preso aos ditames da economia clássica, da visão antiquada de desenvolvimento que aparta a esfera econômica da ambiental e social.  Recursos financeiros não são exatamente um obstáculo. Somados os valores das metas sociais e ambientais, consegue-se viabilizar o Plano proposto por Brown a um custo de US$ 187 bilhões por ano.

Entre  as medidas sociais, estimadas em US$ 77 bilhões, estão educação primária universal, erradicação do analfabetismo, merenda escolar para os 44 países mais pobres, saúde reprodutiva e planejamento familiar, saúde básica universal e disseminação do uso de preservativos.

Entre as ambientais, avaliadas em US$ 110 bilhões, incluem-se o plantio de árvores para sequestro de carbono, contenção de enchentes e conservação do solo, proteção da biodiversidade e estabilização dos recursos hídricos. Para se ter uma idéia do que significa esse dinheiro, ele equivale a 13% dos gastos militares feitos por todos os países do mundo para “defender” a humanidade.

Pode haver melhor investimento para defesa da humanidade  do que a saúde do planeta?

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da consultoria Idéia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade.


Publicado por Voltolini às 16:19 | comentários (1)



SEGUNDA-FEIRA, 21 DE SETEMBRO DE 2009

Propaganda infantil. Hora de acabar!

Muitos visitantes do blog me perguntam sobre o que acho da propaganda infantil. Já escrevi sobre isso. E retorno, portanto, ao tema por insistência dos que, como eu, abominam o uso dos artifícios da publicidade para empurrar produtos para os pequenos.

Tirando a já passada crise econômica, o primeiro semestre deste ano  trouxe uma boa notícia  para pais, mães, ONGs especializadas em crianças e ativistas da responsabilidade social empresarial. Desde o início do ano, vigora um acordo fechado por algumas grandes indústrias multinacionais de alimentos para obedecer a regras mais restritivas em relação à propaganda dirigida a crianças.

Este acordo , na verdade, foi selado em 2007, após a assinatura na Europa de um termo de compromisso chamado EU-Pledge. Por meio dele, empresas com produtos voltados para a criançada se comprometeram a, por exemplo, não mais botar publicidade em canais infantis para os pequenos até seis anos, voltando suas mensagens comerciais aos pais — que, a rigor, são os responsáveis por decidir sobre a compra de produtos e serviços.

Para crianças acima dessa faixa etária, as campanhas devem seguir cuidados básicos, há muito tempo reivindicados por psicólogos e educadores: incentivar a alimentação saudável e a atividade física, não colocar em risco a autoridade dos pais, não confundir as crianças a respeito dos benefícios do produto, nem criar um senso de urgência quanto ao seu consumo. Personagens de programas estão proibidos. A intenção é não gerar expectativas exageradas garantindo ao pequeno telespectador distinguir o conteúdo real do produto e do recurso de fantasia adotado pela propaganda.

Esta é uma medida oportuna, já colocada em prática. Chegou com atraso, mas chegou Há dez anos, especialistas de diferentes áreas pregam a restrição à propaganda infantil para crianças até 12 anos de idade, respaldados em pesquisas que mostram o óbvio , quase sempre ignorado pela desfaçatez do discurso de negócio dos publicitários: em processo formação cognitiva e emocional, as crianças não estão suficientemente maduras para discernir sobre o teor das mensagens publicitárias.  Por isso, são impelidas a um consumismo reativo e acrítico cujos efeitos já podem ser observados no aumento dos índices de obesidade, na erotização precoce e até na dependência de álcool e drogas.

Segundo pesquisa TNS Interscience, de 2007, 83% das crianças brasileiras são influenciadas pela publicidade. Depois dos anúncios de TV, a associação de produtos com personagens famosos e as embalagens atrativas representam os fatores mais impactantes no consumidor infantil. Uma criança brasileira passa em média quase cinco horas diárias em frente à televisão, exposta a uma programação de qualidade duvidosa e a uma bateria de estímulos comerciais, muitas vezes nocivos à sua saúde física e emocional.  Qualquer cidadão decente, que se dispuser a ler sobre o tema na Constituição Federal, no Estatuto da Criança e Adolescente e no Código do Consumidor encontrará elementos contrários à propaganda infantil. 

Com tantas boas razões, uma prática insustentável como esta, já deveria ter sido banida do mapa. Mas o acordo foi comunicado em boa hora, justamente quando já se desenhava um movimento de regulamentação e autorregulamentação sobre a propaganda de alimentos para crianças, capitaneado por Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação.)

Esses dois órgãos fazem bem o seu trabalho. E, no caso deste tema, demonstram estar alinhados com  os anseios éticos dos cidadãos consumidores deste novo milênio. A mudança da indústria rumo a uma comunicação mais responsável responde, portanto, a uma pressão maior por parte da sociedade que já não admite, como em outros tempos, ser alvo de estratégias comerciais agressivas, mentirosas e manipuladoras.


Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor da consultoria Ideia Sustentável: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade
ricardo@ideiasustentavel.com.br 


Publicado por Voltolini às 15:22 | comentários (2)



SEXTA-FEIRA, 11 DE SETEMBRO DE 2009

Diesel, de novo. Na contramão da história.

Há dias em que me ufano  das recentes conquistas do País. E não me refiro às do futebol, mas às socioambientais, como, por exemplo, o controle momentâneo (aguardemos as próximas medições!) do desflorestamento da Amazônia.

Há dias em que a fé na tão propalada vocação para país do futuro sofre abalos sísmicos, em grande medida por causa de decisões equivocadas que nos colocam invariavelmente na contramão da história.

Hoje é um desses dias.

Tiver que ler duas vezes para acreditar em notícia publicada na Folha de São Paulo (Caderno C1- Cotidiano, 11/09/2009). O Ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, afirmou que o governo estuda liberar o uso de diesel para automóveis de passeios, revogando uma lei dos anos 1970, que restringe o uso desse tipo de combustível para caminhões, caminhonetes e veículos comerciais.

Será um tiro no pé. Bem dado.

 

Exatamente como foi o plano decenal de energia, que abriu as portas para a construção de usinas termoelétricas movidas a carvão, sujando a matriz energética brasileira, considerada uma das mais limpas do planeta.

O diesel, como se sabe, emite mais gás carbônico do que o álcool e, portanto, contribui mais para o aquecimento global.

Sobre ele, vale lembrar ainda –até porque a memória no Brasil costuma ter o tamanho de uma mini-saia—que foi objeto de recente polêmica envolvendo a Petrobras por conter uma quantidade de enxofre muito acima dos níveis europeus – aqui 1.800 partes por milhão, lá 10 partes por milhão.

Também não é demais lembrar que, há cerca de dois anos, o presidente Lula perambulou pela Europa apregoando os benefícios do etanol brasileiro para países comprometidos, com metas definidas no âmbito do Protocolo de Kyoto, a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

No papel de vendedor do produto nacional, destacou suas inegáveis qualidades ambientais.

Esse tipo de incoerência entre o que se diz e o que se faz costuma provocar estragos na credibilidade, principalmente quando tratamos com interlocutores historicamente acostumados a não levar tão a sério o discurso de líderes da América Latina.

Recentemente, o Conama (Conselho Nacional de Meio Ambiente) criou norma que limita em 30% (a partir de 2013) a emissão de poluentes nos automóveis  a diesel.

Qualquer ganho de saúde que advenha dessa justa medida corre o risco de ser jogado no lixo se houver, de fato, com a proposta em estudo do governo, um aumento da frota de carros a diesel nas ruas brasileiras.

Mais carros a diesel circulando nas cidades significa manter ou aumentar os atuais níveis, já muito preocupantes,  de mortes (20 por dia na Grande São Paulo) por causa de poluição.

Vale a pena?

O que ganha com isso a política energética brasileira considerando, por exemplo, que o País não é autossuficiente na produção de diesel e que o preço do seu litro, na bomba do posto, só é mais barato do que álcool e gasolina, porque, hoje, ele conta com incentivos fiscais decorrentes  do seu uso em transporte coletivo? 

 

Em sua defesa, o governo alega que só tomará a decisão de liberar o uso do diesel para carros comuns quando tiver certeza de que ele está mais limpo de enxofre.

Para o bem do planeta, para estar alinhado com as expectativas das sociedades mais evoluídas do mundo e para pegar a mão certa da história, não seria melhor pular o diesel e ir direto para o capítulo biodiesel?

……………………………………………………………………………………..

Esta é do Delfim Neto, deu na coluna de Claudia Safatle, do Valor Econômico. Sobre a euforia desenvolvimentista do pré-sal, ele foi brilhante como sempre:

“Corremos o risco de ficar no século XX. A proposta é um bate-caixa político que ignora o fato de que o mundo vai mudar radicalmente. O Obama tem um único objetivo por trás de tudo: reconquistar a autonomia energética dos EUA. Eles vão fazer uma nova revolução industrial com novas fontes de energia. Alguém disse que a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra. A idade do Petróleo também não vai acabar por falta de petróleo.”

O Obama é o cara!

 

Ricardo Voltolini é publisher da revista Ideia Socioambiental e diretor de Ideia Sustentabilidade: Estratégia e Inteligência em Sustentabilidade.

ricardo@ideiasustentavel.com.br

www.ideiasustentavel.com.br

 


Publicado por Voltolini às 18:13 | comentários (0)



Ricardo Voltolini é jornalista e diretor da Idéia Sustentável. Há 11 anos dedica-se exclusivamente ao tema da Sustentabilidade...

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